Existe uma lacuna curiosa na forma como empresas e investidores avaliam risco. Sabemos calcular exposição cambial, risco de crédito, impacto de variações de taxa. Mas, poucos conseguem responder a perguntas muito mais fundamentais: de quais recursos naturais nossa operação depende? O que acontece com nosso modelo de negócio se a bacia hidrográfica onde produzimos entrar em estresse hídrico? Quanto da nossa cadeia de fornecimento está exposta a biomas críticos?
A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) foi criada para responder a essas perguntas. E, mais do que isso, para que as respostas entrem de verdade na gestão de riscos, na estratégia e na comunicação com investidores.
Este é o primeiro artigo de uma série na qual vamos explorar este framework em profundidade. Aqui, o objetivo é mais simples: entender o que a TNFD é, como está estruturada e por que o momento de se preparar é agora.
Por que a TNFD existe?
O ponto de partida é um dado que costuma surpreender: o Fórum Econômico Mundial estima que mais da metade do PIB mundial, cerca de US$ 44 trilhões, depende moderada ou altamente da natureza. Não como metáfora, mas como insumo direto: água para resfriamento industrial, polinizadores que viabilizam cadeias alimentares, solos que sustentam a agricultura, florestas que regulam o ciclo hidrológico de regiões inteiras.
Durante décadas, o mercado financeiro tratou esses recursos como dados — presentes, gratuitos e inesgotáveis. Essa premissa está sendo questionada de forma acelerada já que problema não é apenas ecológico: quando ecossistemas entram em colapso, o impacto é financeiro e operacional, não apenas ambiental.
Outra força-tarefa, a Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) mostrou, a partir de 2017, que era possível trazer o clima para dentro da gestão de riscos corporativos.
Com a TNFD podemos aplicar a mesma lógica, mas para um problema estruturalmente mais complexo.
Enquanto o TCFD trabalha com uma métrica universal — carbono —, o TNFD opera com um conjunto heterogêneo de dimensões: biodiversidade, uso do solo, qualidade e quantidade da água, recursos marinhos, integridade de ecossistemas. Não existe um “CO₂ da biodiversidade”.
Essa complexidade não é um defeito do framework, mas sim um reflexo fiel da realidade. E é exatamente por isso que a TNFD não pode ser tratada como checklist.

O que a TNFD é? E o que ele não é!
A TNFD é um conjunto de recomendações e orientações para que empresas e instituições financeiras avaliem e divulguem suas dependências, impactos, riscos e oportunidades relacionados à natureza. Foi desenvolvida entre 2021 e 2023, com quatro versões beta abertas a feedback público, e publicou suas recomendações finais em setembro de 2023.
Uma distinção importante desde o início: a TNFD não é um padrão — é um framework de recomendações. Isso tem uma implicação prática enorme: a empresa tem liberdade para começar com um subconjunto das divulgações, adaptar ao seu setor, ao seu bioma e ao seu modelo de negócio. Não existe uma aplicação padrão que funcione para todas as organizações.
Isso também significa que tentar “implementar a TNFD” como um projeto de compliance, marcando caixas em uma lista, tende a gerar pouco resultado. O risco é o mesmo que já aconteceu com outros frameworks: aplicação formal, baixa conexão com a operação, pouca influência nas decisões reais.
A arquitetura: três camadas que se alimentam
A TNFD tem uma lógica interna que vale entender antes de entrar nos detalhes. Ele funciona em três camadas que se alimentam em sequência.

A primeira camada: o que a empresa precisa identificar
O ponto de partida do framework é a identificação das interfaces entre o negócio e a natureza. Isso é capturado por um acrônimo central: DIRO.
Dependências são os serviços que a natureza presta à operação como água limpa, polinização, regulação climática local, estabilidade de solos. A empresa os usa, frequentemente sem custo explícito, e é vulnerável se eles se degradam.
Impactos são o que a empresa causa à natureza como desmatamento, poluição de aquíferos, fragmentação de habitat, mas também restauração de áreas degradadas e práticas regenerativas. Positivos e negativos contam.
Riscos são as consequências financeiras que emergem das dependências e impactos: uma seca que paralisa a produção, uma regulação que restringe práticas da cadeia de fornecimento, uma campanha de investidores que penaliza empresas associadas a biomas degradados.
Oportunidades são as vantagens competitivas que emergem de uma postura nature-positive: acesso a financiamento verde, diferenciação de produto, resiliência de cadeia de valor, novos mercados de serviços ecossistêmicos.
O DIRO será explorado em profundidade em artigo próprio desta série.
A segunda camada: o processo de avaliação
Para identificar e avaliar os DIROs de forma estruturada, a TNFD propõe o LEAP — Locate, Evaluate, Assess, Prepare. É o processo interno de due diligence que a empresa conduz antes de qualquer divulgação pública.
Locate mapeia onde, ao longo da cadeia de valor, a empresa tem interfaces com a natureza que podem ser materialmente relevantes. Evaluate analisa o que está acontecendo naqueles locais — quais dependências e impactos existem e qual é sua magnitude. Assess traduz essa análise para a linguagem de riscos e oportunidades financeiras. E Prepare é onde tudo isso vira estratégia, compromissos e comunicação pública.
Cada fase do LEAP terá um artigo dedicado nesta série.
A terceira camada: o que a empresa divulga
As divulgações seguem a mesma estrutura de quatro pilares da TCFD — Governança, Estratégia, Gestão de Riscos e Métricas e Metas, com 14 recomendações distribuídas entre eles. Três dessas recomendações são completamente novas em relação ao TCFD:
G3 — engajamento com povos indígenas e comunidades locais afetadas pelas atividades da empresa.
S4 — divulgação dos locais prioritários onde a empresa tem interfaces significativas com a natureza: biomas, bacias hidrográficas, áreas protegidas.
R4 — gestão de riscos e impactos ao longo da cadeia de valor, não apenas nas operações diretas.
Essas três adições refletem o que é estruturalmente diferente entre clima e natureza: o impacto sobre um aquífero ou uma floresta depende de onde isso acontece, de quem vive em volta, e de como a cadeia produtiva inteira se relaciona com aquele ecossistema. A dimensão geográfica e social é incontornável.
Por que o momento é agora
O TNFD nasceu como framework voluntário. Mas o campo está mudando rapidamente e a janela entre “voluntário” e “obrigatório” é exatamente onde está a vantagem competitiva de começar agora.
O ISSB assumiu o tema
Em novembro de 2025, o International Sustainability Standards Board (ISSB), o mesmo órgão que absorveu a TCFD, anunciou que iniciaria um processo formal de normatização para divulgações relacionadas à natureza, baseado diretamente no framework TNFD. O objetivo é ter um Exposure Draft pronto para a COP17, da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), em outubro de 2026.
O paralelo com a TCFD é instrutivo: lançado como voluntário em 2017, a TCFD foi absorvida pelo ISSB em 2023 e hoje é referência de reporte obrigatório em dezenas de jurisdições. A TNFD está percorrendo o mesmo caminho, com velocidade maior.
O ISSB também deixou claro que o IFRS S1 — o padrão geral de divulgação de sustentabilidade já em vigor — já requer que empresas divulguem informações materiais sobre qualquer risco ou oportunidade de sustentabilidade relevante para as perspectivas da entidade. Natureza está dentro desse escopo, mesmo antes de um padrão específico existir.
O Brasil está mais avançado do que parece
A CVM emitiu a Resolução 193 em outubro de 2023, exigindo que empresas listadas na B3 reportem alinhadas ao IFRS S1 e S2 a partir de 2026. O Brasil foi a primeira grande economia a incorporar o baseline do ISSB na regulação doméstica. Quando o padrão de natureza do ISSB for publicado, este mandato se expandirá automaticamente.
O Governo Federal instituiu a Taxonomia Sustentável Brasileira em outubro de 2025, por meio do Decreto 12.705, com critérios que já incluem proteção e restauração da biodiversidade e ecossistemas entre seus objetivos ambientais
Empresas que começam agora terão dois a três anos para construir processos, dados e governança antes que o que hoje é voluntário se torne mandatório.
Quem esperar terá menos tempo para se preparar e pagará mais por isso.
O que vem a seguir nesta série
A TNFD não é mais uma exigência de compliance a ser gerenciada na periferia da organização. É, na essência, uma mudança na forma de olhar riscos e oportunidades ao incorporar a natureza de forma estruturada na gestão. E isso leva tempo para ser feito bem.
Nos próximos artigos desta série, vamos aprofundar cada componente do framework.
Você já colocou a sua empresa em rota de convergência com a TNFD ou ainda está olhando o tema apenas como mais uma sigla do mercado?



