Mercado de Carbono

O Brasil no centro do clima: vamos corroer ou sustentar a credibilidade?

Por Rubens Ferreira02 junho 2026

O mercado voluntário de carbono é hoje um dos termômetros mais visíveis da integridade climática brasileira, pendendo, no entanto, para dois lados.

Todo 5 de junho, o mundo para para falar sobre meio ambiente. Em 2026, o tema escolhido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é “Mudanças Climáticas: os sinais urgentes que a Terra envia e os sinais que escolhemos enviar de volta”. É um tema que cabe bem a qualquer país. Mas cabe de forma particular ao Brasil, que nos últimos meses ocupou o centro do debate climático global de uma forma que não acontecia há muito tempo.

A COP 30, em Belém, fez isso. Durante duas semanas de novembro de 2025, o Brasil voltou ao tabuleiro climático internacional com uma presença que impressionou: discursos potentes, diplomacia afinada, a força simbólica de discutir a Amazônia dentro da Amazônia. O país construiu — ou reconstruiu — a imagem de liderança climática confiável. E saiu da conferência com algo que não tem preço no cenário internacional: credibilidade.

O problema começa agora.

Entre o aplauso e a implementação

Credibilidade climática não se sustenta por muito tempo só na retórica. Investidores, governos, organismos multilaterais e a própria sociedade brasileira vão observar cada vez menos o que o Brasil diz. E, cada vez mais, o que faz quando o holofote se afasta. E há sinais contraditórios.

Do lado positivo temos o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) que avança em ritmo consistente. A Lei 15.042/2024 criou o marco legal e o Decreto 12.768/2025 regulamentou as bases. Em janeiro de 2026, Serpro e Ministério da Fazenda iniciaram a construção da infraestrutura digital do sistema. Em maio, o governo deu um passo ainda mais concreto ao apresentar ao Comitê Técnico Consultivo a proposta de cobertura setorial, definindo as três fases de entrada das indústrias no sistema com as indústrias de papel e celulose, ferro e aço, cimento, petróleo e gás e transporte aéreo na primeira etapa, a partir de 2027. A regulamentação final está prevista para o fim de 2026.

Do lado que preocupa, o Congresso acumulou, em menos de seis meses, dois movimentos que vão na direção oposta. O primeiro foi imediato! Na semana seguinte ao encerramento da COP30, em sessão realizada no dia 27 de novembro, o Congresso derrubou a maioria dos vetos presidenciais à Lei 15.190/2025, o chamado ‘PL da Devastação’ do licenciamento ambiental, considerada por especialistas o maior retrocesso socioambiental desde a redemocratização.

O segundo veio em maio de 2026 quando a Câmara aprovou o PL 2.564/2025, que proíbe o IBAMA de usar sensoriamento remoto como base para embargos automáticos em áreas de desmatamento. Na prática, isso enfraquece o principal instrumento de fiscalização ambiental em regiões remotas. O texto ainda segue para o Senado, mas a direção já aponta o tipo de contradição que corrói a credibilidade construída com dificuldade. Um país não pode convocar o mundo para agir pelo clima e, ao mesmo tempo, desmontar os instrumentos que sustentam essa convocação.

O que o mercado de carbono tem a ver com isso?

Eu digo que muito. O mercado voluntário de carbono é hoje um dos termômetros mais visíveis da integridade climática brasileira, pendendo, no entanto, para dois lados.

Por um deles, de acordo com o segundo relatório da McKinsey (2022), o Brasil concentra 15% do potencial global de compensação de carbono por soluções baseadas na natureza, ou seja, mais do que Estados Unidos (3%), China (2%) e Rússia (2%) somados. Tem a maior floresta tropical do mundo, biomas únicos, comunidades tradicionais com conhecimento acumulado de gestão territorial. Temos condições de ser, genuinamente, um provedor de créditos de alta integridade em escala que nenhum outro consegue oferecer.

Já para o outro, vimos que o mercado voluntário brasileiro também registrou, nos últimos anos, casos graves de irregularidades apontando projetos com sobreposição a terras de comunidades tradicionais, grilagem, ausência de consulta prévia e adicionalidade questionável. Esses casos tiveram repercussão internacional e alimentaram a desconfiança sobre a qualidade do que o Brasil oferece. Numa era em que compradores europeus respondem à Diretiva para a Comunicação de Informação sobre a Sustentabilidade das Empresas (CSRD, em inglês) e o escrutínio sobre greenwashing nunca foi tão intenso, a reputação do mercado brasileiro é um ativo estratégico — e é frágil.

O mercado de carbono que estamos construindo é o que vai sustentar a liderança climática que o Brasil acabou de reivindicar ou vai corroê-la?

O sinal que as empresas podem enviar

O tema da UNEP para 2026 “#NowForClimate” convoca ação imediata. E no contexto do mercado de carbono, a ação mais concreta que uma empresa pode tomar é também a menos glamourosa: garantir que os créditos que compra são o que dizem ser.

Isso significa ir além do certificado. Significa perguntar sobre o histórico de quem desenvolveu o projeto, verificar a integridade territorial da área, checar se o processo de consulta às comunidades foi genuíno, não apenas formal e entender o que a auditoria por amostragem não captura, além de fazer as verificações complementares que esse gap cria.

Não é pouco. Mas é exatamente o tipo de trabalho que diferencia uma empresa que usa o mercado de carbono para construir credibilidade climática daquela que o usa para criar uma aparência de responsabilidade sem o conteúdo correspondente.

O Brasil saiu da COP30 com uma janela de oportunidade. O SBCE avança. O mundo está olhando. Este 5 de junho é um bom momento para as empresas brasileiras decidirem que sinal querem enviar. Não para a UNEP, mas para o mercado, para as comunidades que dependem da integridade desse sistema, e para a credibilidade climática que o país levou anos para reconstruir.

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