Existe uma tendência natural de tratar qualquer novo framework de gestão corporativa como um projeto que começa do zero, com planilhas em branco e um cronograma ambicioso. A Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) não funciona assim. Ela foi desenhada para ser construída sobre o que a organização já conhece de si mesma.
Neste segundo artigo sobre TNFD (confira o primeiro aqui), vamos mostrar que o primeiro passo para colocar este framework em prática é organizar, avaliar e complementar o que já existe.
Pense nas informações que circulam pela sua empresa relacionadas a licenças, operações, fornecedores e impactos ambientais.
Em geral, as organizações já dispõem de:
- Licenças de operação, EIAs e laudos ambientais: identificam ecossistemas afetados, recursos hídricos utilizados, espécies mapeadas e obrigações de compensação. Muitas vezes arquivados e esquecidos, mas com informação de alto valor para a TNFD.
- Relatório de sustentabilidade: se a empresa já reporta consumo hídrico, emissões, gestão de resíduos e impactos em comunidades, independentemente do modelo usado — tem a base para boa parte das dimensões que a TNFD exige.
- Políticas ambientais e de biodiversidade: Muitas empresas têm políticas internas que nunca foram lidas com os olhos da TNFD. Foi o que aconteceu com a Iberdrola: ao mapear o que já tinha para aplicar as fases Locate e Evaluate do LEAP, a empresa descobriu que políticas de biodiversidade, programas de monitoramento e dados operacionais já acumulados serviam diretamente ao processo, um case documentado pela própria TNFD.
- Cadastro Ambiental Rural (CAR): para empresas com operações rurais ou cadeias de fornecimento agropecuárias, o CAR traz informação espacial sobre localização das propriedades em relação a áreas de preservação permanente e reserva legal.
- Mapeamento de fornecedores: se a empresa já fez due diligence de fornecedores por razões de compliance ou ESG, tem um mapa parcial de onde sua operação toca a natureza indiretamente.
- Dados de gestão hídrica e monitoramento ambiental: empresas industriais que monitoram captação de água, efluentes e uso de energia já estão medindo dependências de natureza, mesmo sem saber que estão fazendo TNFD.
Vale mencionar também certificações ambientais, em especial a ISO 14001. Empresas que mantêm um sistema de gestão ambiental certificado já realizaram o levantamento de aspectos e impactos ambientais de suas operações: quais atividades interagem com o meio ambiente, de que forma e com que intensidade. Esse levantamento é um insumo direto para o inventário da TNFD. Apenas atenção pois a ISO 14001 foi desenhada para gestão de conformidade e melhoria contínua operacional, não para análise de dependências de natureza ou risco financeiro.
Com o intuito de facilitar a compreensão, preparamos uma tabela que organiza essa lógica de forma prática: para cada pergunta, o que os documentos existentes já respondem, um exemplo concreto e o que ainda falta.
Onde? Onde a empresa opera e onde sua cadeia de valor se encontra com ecossistemas e áreas de biodiversidade.
Do que depende? Quais serviços ecossistêmicos a operação usa para funcionar: água, solo, polinização, regulação climática.
O que impacta? Que efeitos a operação gera sobre ecossistemas e biodiversidade, além das emissões de GEE.
O que isso significa para o negócio? Como dependências e impactos se traduzem em riscos e oportunidades relevantes para investidores e credores.
| Pergunta TNFD | O que os documentos existentes já respondem | Exemplo concreto | O que ainda falta |
| Onde? (fase Locate) | Licença de Operação e EIA identificam a localização das instalações e ecossistemas no entorno. CAR registra a localização fundiária em relação a APPs e reserva legal. Mapeamento de fornecedores indica onde a cadeia de valor opera. | EIA identifica área de Mata Atlântica no entorno da planta industrial, com condicionante de monitoramento de fauna. | Falta: cruzamento entre os ecossistemas identificados no EIA e bases de dados de biodiversidade para avaliar relevância global ou regional não capturada no estudo original. Dimensão espacial da cadeia de fornecimento quase sempre ausente. |
| Do que depende? (fase Evaluate) | Gestão hídrica documenta captação e consumo de água por fonte. Licença de Operação registra recursos naturais usados. Certificações ambientais (ex: ISO 14001) levantam aspectos ambientais da operação. | Relatório de gestão hídrica registra captação de 2.000 m³/dia de aquífero local — dependência hídrica quantificada mas não avaliada em cenário de estresse. | Falta: mapeamento de serviços ecossistêmicos além de água e energia — polinização, regulação climática, controle de erosão. Dependências indiretas via cadeia de fornecimento raramente documentadas. |
| O que impacta? (fase Assess) | Relatório de sustentabilidade registra emissões de GEE, geração de resíduos e efluentes. Auditorias internas documentam não-conformidades e passivos ambientais. ISO 14001 levanta aspectos ambientais significativos. | Relatório GRI reporta redução de 30% nas emissões diretas desde 2018, mas não documenta impactos sobre biodiversidade ou qualidade do solo no entorno das operações. | Falta: impactos sobre biodiversidade e ecossistemas além do clima. A maioria dos relatórios de sustentabilidade não cobre essa dimensão, que é central para a TNFD. |
| O que significa para o negócio? (fase Prepare) | Relatórios de pares mostram o que empresas do mesmo setor já divulgam. Parcialmente coberto por relatórios financeiros quando há passivos ambientais relevantes. | Empresa do setor de papel e celulose encontra nos relatórios de pares que dependência de água e risco de incêndio florestal são os riscos de natureza mais citados por investidores — mas não tem essa análise feita para si. | Esta é a lacuna mais comum e mais relevante: a tradução de dependências e impactos em riscos e oportunidades financeiramente materiais para investidores e credores. Quase nenhuma empresa brasileira tem isso documentado. |
O que geralmente observamos é um padrão consistente no qual as empresas têm dados sobre operações diretas, mas quase nenhuma informação estruturada sobre a cadeia de fornecimento. Outro ponto é que raramente fazem o cruzamento geográfico para saber qual ecossistema está ao lado.
| Dica prática: Uma dica prática, baseada nos primeiros relatórios IFRS S1 e S2 publicados no Brasil: antes de qualquer ferramenta, mapeie seu modelo de negócio e sua cadeia de valor. Vale, Renner e Irani utilizaram esse mapa como instrumento central de identificação e localização de riscos e oportunidades. Na Vale e na Irani, os riscos climáticos estão posicionados diretamente sobre o desenho da cadeia operacional. Na Renner, o panorama da cadeia têxtil expõe não só os riscos físicos priorizados como também as dependências de matérias-primas naturais que os explicam. O mesmo raciocínio vale para a TNFD: saber onde sua operação toca a natureza exige primeiro entender como ela funciona. Os dois frameworks fazem perguntas diferentes sobre o mesmo mapa. |
O trabalho de casa: quem precisa estar na sala

Antes de iniciar qualquer avaliação formal pelo LEAP, a TNFD recomenda dois passos que parecem óbvios mas são frequentemente pulados.
O primeiro é construir o caso interno. Riscos relacionados à natureza precisam chegar ao conselho e à diretoria financeira em linguagem que faça sentido para quem aloca capital. Isso significa traduzir risco de biodiversidade em risco de negócio como interrupção de cadeia de fornecimento, variação de custo de insumos, exposição regulatória, reputação com investidores.
O segundo é o inventário. Para ser útil, precisa envolver pelo menos quatro perspectivas: a área de sustentabilidade, que conhece os dados ambientais; o jurídico, que tem as licenças e os passivos; as operações, que sabem o que de fato é usado no processo produtivo; e o CFO ou a área de risco, que define o que é materialmente relevante para o negócio. Sem essa conversa cruzada, o inventário fica incompleto antes mesmo de começar.
| Por que um olhar externo ajuda nessa etapa O inventário inicial tem uma dificuldade específica: quem está dentro da empresa raramente consegue enxergar com clareza o que falta, porque o que falta, por definição, não está nos processos existentes. Um facilitador com experiência em TNFD consegue identificar lacunas mais rapidamente, traduzir os dados existentes para a linguagem do framework e estruturar as perguntas certas para cada área. Não é uma etapa que exige terceirização completa: é uma etapa que se beneficia de um olhar externo familiarizado com o framework, capaz de identificar lacunas que quem está dentro da operação raramente consegue ver. |
Um processo, não uma corrida

A TNFD não foi projetada para ser implementada de uma vez. O próprio framework descreve o LEAP como um processo iterativo, que começa com escopo limitado e vai ganhando profundidade ao longo dos ciclos de reporte. Empresas que tratam a TNFD como um projeto com prazo fixo tendem a produzir análises superficiais. As que tratam como um processo de aprendizado progressivo chegam mais longe, e é o que acontece. O inventário inicial não precisa ser perfeito, mas precisa ser transparente: o que temos, o que falta, e por onde começar. Esse é o único pré-requisito real antes do LEAP.
O próximo passo
No próximo artigo desta série, entraremos na fase Locate do LEAP, a etapa que transforma o inventário inicial em um mapa de onde a operação toca a natureza. É a fase que torna concreto aquilo que até aqui era percepção.
Antes disso, vale o exercício: abra uma planilha e liste o que sua empresa já sabe sobre onde opera, de quais recursos naturais depende e que impactos gera. Pode ser que a lista surpreenda.
—
Rubens Ferreira é coordenador do Programa Compromisso com o Clima, hub de conhecimento em clima e sustentabilidade, do Instituto Ekos Brasil.
Referências: TNFD Recommendations v1.0 (set/2023); Getting started with adoption of the TNFD Recommendations (TNFD, set/2023); WSP — Gap Analysis: a key step for TNFD adoption (wsp.com, mai/2025); WSP/UN Global Compact — TNFD Essentials: A Beginner’s Guide to Nature-Related Financial Disclosures (jan/2025); Green Finance Institute — TNFD: Getting Started with Data and Metrics; Green Finance Institute — TNFD: First Steps by Sector; Global Canopy — Define, align and close data gaps: lessons from the first pilot test of the TNFD framework (ago/2022); GRI-TNFD Interoperability Mapping Tool (globalreporting.org);WBCSD — TNFD pilot use case: an energy company (Iberdrola) (tnfd.global, 2023).



