Gestão de Emissões

El Niño 2026: quando o fenômeno natural encontra um planeta mais quente

Por Rubens Ferreira28 julho 2026

Entenda como o El Niño 2026 pode intensificar eventos climáticos extremos no Brasil e o papel do mercado de carbono na mitigação de emissões.

Em 2026, o El Niño voltou a ganhar força no Oceano Pacífico e, segundo o monitoramento conjunto do INPE, INMET, Funceme e Censipam, a probabilidade é de que o fenômeno se mantenha ativo até pelo menos o início de 2027. Os modelos da NOAA (agência norte-americana de oceanos e atmosfera) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam ainda uma chance relevante de que 2026 se torne o quinto “Super El Niño” registrado em 150 anos de observações, ao lado de 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Mas o que esse fenômeno tem a ver com as mudanças climáticas e por que ele importa tanto para o Brasil?

O que é o El Niño?

El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes que a média histórica. Ele faz parte de um ciclo chamado ENSO (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre três fases: El Niño (aquecimento), La Niña (resfriamento) e uma fase neutra. Quando a anomalia de temperatura ultrapassa +2°C, o evento é classificado como “Super El Niño”, uma categoria rara, mas que os modelos apontam como possível para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com probabilidade estimada em cerca de 63%.

Esse aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica em escala global, deslocando os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, inclusive muito longe do oceano onde o fenômeno se origina.

A relação com as mudanças climáticas

O El Niño é um fenômeno natural, que existe há milênios independentemente da ação humana. O que mudou é o cenário em que ele acontece. Como explica o climatologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em matéria publicada pela Exame, o aquecimento global ao longo do século XXI tende a aumentar tanto a frequência quanto a intensidade dos episódios de El Niño. A ciência climática chama esse processo de “amplificação de extremos”: o fenômeno em si não muda de natureza, mas passa a atuar sobre uma atmosfera mais quente, mais úmida e mais energética, o que transforma eventos antes considerados moderados em episódios extremos.

Na prática, isso significa que o El Niño de 2026 não chega a um planeta neutro, e sim a um planeta já aquecido pelas emissões acumuladas de gases de efeito estufa. O resultado é um risco maior de recordes de temperatura, ondas de calor mais longas e eventos climáticos extremos com impactos mais severos sobre a biodiversidade, a economia e, principalmente, as populações em situação de maior vulnerabilidade socioambiental.

Efeitos do El Niño no Brasil

No território brasileiro, o El Niño costuma provocar efeitos opostos entre o Norte e o Sul do país. Na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, o fenômeno tende a intensificar o risco de seca. Já no Sul, o efeito se inverte: as chuvas ficam mais intensas e concentradas, elevando o risco de enchentes e deslizamentos de terra. No Sudeste e no Centro-Oeste, a tendência é de ondas de calor mais frequentes, muitas vezes combinadas com umidade relativa do ar muito baixa.

A agricultura está entre os setores mais sensíveis a essas mudanças, já que as alterações nos padrões de chuva e temperatura afetam diretamente o desenvolvimento das culturas e a produtividade das safras, com efeitos que se propagam por toda a cadeia econômica do país.

O papel do mercado de carbono na mitigação

Diante desse cenário, iniciativas que reduzem a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera deixam de ser apenas compromissos ambientais de longo prazo e passam a ser parte da resposta a fenômenos que já afetam o presente. É nesse contexto que o mercado de carbono ganha relevância como ferramenta concreta de mitigação.

No Brasil, esse caminho começou a se consolidar com a sanção da Lei nº 15.042/2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), dividido em um mercado regulado e um mercado voluntário de créditos de carbono. Ao longo de 2026, o governo federal trabalha para concluir a regulamentação infralegal do sistema, com a expectativa de que o mercado regulado entre em plena operação a partir de 2030. Empresas classificadas como fontes reguladas já passam a ter obrigações formais de monitoramento, relato e verificação (MRV) de suas emissões, com metodologias padronizadas e fiscalização independente.

Mecanismos como esse têm um papel duplo: de um lado, criam incentivo econômico direto para a redução de emissões e para a preservação de florestas e outros sumidouros de carbono; de outro, direcionam recursos para projetos de mitigação e adaptação climática que ajudam a reduzir a vulnerabilidade do país a fenômenos como o El Niño. Quanto mais rápido as emissões forem reduzidas, menor tende a ser a amplificação de eventos climáticos extremos nas próximas décadas e é justamente nesse ponto que iniciativas de mercado de carbono se conectam ao enfrentamento imediato de fenômenos como o de 2026.

O Programa Compromisso com o Clima é uma dessas iniciativas. Com gestão do Instituto Ekos Brasil, o programa conecta organizações a projetos de carbono de alta integridade de forma independente, através de metodologia específica, amplificando o impacto de suas ações pela mitigação das mudanças climáticas. 

Nos últimos 9 anos, já avaliamos 4,7 milhões de tCO₂e em projetos de REDD+, 78.260 tCO₂e em projetos de ARR e 568.334 tCO₂e em projetos IFM. 

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