Gestão de Emissões

Inventário de GEE: por que a maioria não serve para a tomada de decisão

Por Rubens Ferreira10 abril 2026

O número de reportes de emissão cresce no Brasil. Mas, sua empresa está usando o inventário para tomar decisão ou apenas para declarar que mede suas emissões?

Em 2025, o Programa Brasileiro GHG Protocol (FGVces) registrou um recorde de inventários de emissões publicados na plataforma Registro Público de Emissões. Foram 1300 reportes, uma alta de 25% em relação ao ano anterior. Um número que, certamente, precisa ser celebrado. Afinal, quase toda empresa relevante já “tem o seu”.

A reflexão que os tomadores de decisão de empresas de todos os portes devem fazer é: estou apenas cumprindo uma obrigação ao reportar ou os inventários estão, de fato, sendo úteis para a gestão?

Na minha visão, o erro começa na forma como o inventário é encarado. Quando o objetivo é “cumprir tabela”, a preocupação deixa de ser a representatividade do dado e passa a ser a entrega do número. Isso leva a escolhas metodológicas simplificadas, uso excessivo de dados secundários e adoção de fatores de emissão genéricos, muitas vezes desconectados da realidade operacional da empresa.

O resultado é conhecido: um inventário formalmente correto, mas tecnicamente frágil.

O ponto crítico está na qualidade da informação. Inventário não é apenas cálculo; é a construção de um modelo que busca representar emissões reais a partir de dados disponíveis. Isso envolve premissas, aproximações e escolhas metodológicas. Sem transparência nesses elementos, e sem uma leitura mínima de incerteza, o número final pode transmitir uma confiança que não se sustenta.

E esse é o ponto que costuma passar despercebido.

Atenção especial aos pontos frágeis

Nesse contexto, o Escopo 3 merece atenção especial. Em grande parte das empresas, ele concentra a maior parcela das emissões. Ao mesmo tempo, é onde os dados são mais escassos e as estimativas mais dependentes de dados substitutos ou aproximações indiretas. Na prática, o que se observa é uma combinação de subestimação, simplificação excessiva ou tratamento superficial. Ignorar esse problema não elimina o risco, apenas o oculta.

Outro ponto recorrente é a baixa rastreabilidade. Muitas vezes não está claro de onde vêm os dados, quais critérios foram utilizados para a seleção de fatores de emissão ou como determinadas premissas foram definidas. Isso dificulta qualquer processo de verificação, revisão ou melhoria contínua. Um inventário sem rastreabilidade é, na prática, um exercício fechado.

Então, o que diferencia um inventário útil de um inventário apenas “existente”?

O caminho da maturidade climática

Anos de experiência me levam a crer que é a sua capacidade de sustentar decisão. Isso exige três elementos básicos: qualidade de dados compatível com o uso pretendido, clareza metodológica e capacidade de interpretação dos resultados. Sem isso, não há base sólida para definição de metas, avaliação de riscos ou priorização de ações.

Há também um equívoco recorrente na capacitação. Saber “fazer o inventário”, ou seja, aplicar fórmulas, consolidar dados, seguir um protocolo, é apenas o ponto de partida. O diferencial está na capacidade de questionar o resultado: quais são suas limitações e inconsistências? Esse reporte representa, realmente, a realidade que pretende descrever? Se cabe a você tomar decisões sobre um caminho de maior sustentabilidade para a sua empresa, não deixe de fazer essas perguntas.

Inventários de GEE são frequentemente apresentados como o primeiro passo da gestão climática. Isso é verdade. Mas apenas quando são bem construídos! Caso contrário, tornam-se uma base instável sobre a qual se tenta construir uma estratégia.

E estratégia baseada em dado frágil não é estratégia.

No fim, a pergunta é simples: a empresa está usando o inventário para tomar decisão ou apenas para declarar que mede suas emissões?

A diferença entre uma coisa e outra define o nível de maturidade climática muito mais do que o próprio número reportado.

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