Gestão de Emissões

Emissões de Processo: o “ponto cego” dos inventários corporativos

Por Rubens Ferreira13 maio 2026

Entenda como as emissões de processo impactam a precisão dos relatórios de GEE e a tomada de decisão climática nas empresas.

Quando se fala em inventários de gases de efeito estufa, a discussão normalmente se concentra nas fontes mais evidentes: consumo de combustíveis (Escopo 1) e uso de energia elétrica (Escopo 2).

Faz sentido já que esses são dados disponíveis, padronizados e, na maioria dos casos, relativamente bem estimados.

Mas existe uma categoria de emissões que, apesar de frequentemente relevante, permanece pouco discutida e, em muitos casos, mal estimada: as emissões de processo.

Diferente das emissões por combustão, que estão associadas à geração de energia, as emissões de processo decorrem de transformações químicas, físicas ou biológicas inerentes à própria atividade produtiva.

E é justamente por isso que elas são mais difíceis de identificar. E, mais ainda, de quantificar.

O Greenhouse Gas Protocol trata essas emissões como parte do Escopo 1, mas a sua correta contabilização depende de um nível de entendimento do processo produtivo que nem sempre está disponível ou sequer é demandado durante a elaboração do inventário.

Na prática, isso leva a dois problemas recorrentes: a subestimação e aproximação excessiva. 

Primeiro ponto cego do inventário corporativo

Primeiro ponto cego do inventário corporativo. Fonte Canva Pro.
Canva Pro.

Subestimação. Em muitos inventários, simplesmente não há identificação clara das reações ou etapas que geram emissões. Quando isso acontece, o inventário pode parecer completo, mas deixa de fora fontes relevantes.

Um exemplo clássico está na indústria de cimento.

Durante a produção de clínquer, a decomposição térmica do calcário (CaCO₃ → CaO + CO₂) gera emissões significativas de CO₂ que não estão relacionadas ao consumo de combustível, mas à própria reação química. Dependendo da planta, essas emissões podem representar mais da metade das emissões totais, você sabia? 

Ainda assim, não é incomum encontrar inventários que tratam o processo de forma simplificada, sem detalhamento da estequiometria ou com uso de fatores genéricos pouco representativos da operação real.

Segundo ponto cego do inventário corporativo

Segundo ponto cego do inventário corporativo. Fonte Canva Pro.
Canva Pro.

Aproximação excessiva. Quando as emissões de processo são reconhecidas, muitas vezes são calculadas com base em fatores médios ou dados secundários, sem conexão direta com as condições específicas da planta.

Isso pode ocorrer, por exemplo, em setores como:

  • produção de cal e cimento
  • siderurgia (redução de minério)
  • indústria química (reações específicas, como produção de ácido nítrico ou amônia)
  • tratamento de efluentes (emissões de CH₄ e N₂O)

Nesses casos, pequenas variações operacionais como na composição da matéria-prima, na eficiência do processo, na temperatura e no tipo de tecnologia podem gerar diferenças relevantes nas emissões reais.

Mas essas variáveis raramente entram no cálculo. E isso acaba gerando um resultado paradoxal: um inventário “metodologicamente correto”, mas que não representa com precisão o que de fato acontece na operação.

Como consequência, as empresas podem perder a capacidade de identificar oportunidades reais de redução, podem priorizar ações com menor impacto climático e, em alguns casos, assumir riscos ao reportar números que não refletem a sua realidade operacional. 

O que fazer, então, para uma análise mais consistente? 

Minha dica é sair do inventário como exercício contábil e aproximá-lo do processo produtivo. Desça alguns andares, literal ou metaforicamente, para entender as as reações envolvidas, avaliar a origem das matérias-primas, verificar rendimentos e perdas e, quando possível, utilizar dados primários da operação

Esse nível de aprofundamento não é trivial, mas é o que diferencia um inventário que “cumpre requisito” de um inventário que efetivamente apoia a tomada de decisão.

O seu inventário é um exercício contábil ou um reflexo da realidade produtiva? 

Notícias relacionadas

Veja mais